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A SINA RUSSA E SUA NOVA ESTRATÉGIA: TUDO OU NADA

  • Foto do escritor: rafaelpupomaia
    rafaelpupomaia
  • há 1 dia
  • 12 min de leitura

É fato que a intenção do blog é analisar o cenário macro dos acontecimentos e desenvolver pensamentos críticos em relaçõa as estratégias utilizadas pelas grandes potências. Desde 2022, venho defendendo a ideia da guerra de desgaste da Rússia como uma estratégia macro, com intuito de enfraquecer os EUA e o Ocidente no sentido político-econômico e militar com os auxílios desefreados para seus parceiros. No entanto, há claramente uma mudança de posicionamneto russo perante a essa estratégia, o que muda completamente o cenário do conflito para a Rússia. A ideia é entender essa mudança de estratégia, desdobramentos e a nova abordagem do Kremlin.

Tudo indica que a estratégia russa de realizar essa guerra de desgaste propositalmente, criando um pipeline contínuo de armas, dinheiro e recursos para a Ucrânia, que enfraqueceria no longo prazo os EUA, sendo a porta de entrada para sua debacle, mudou completamente de rumo pela necessidade no cenário de operações e não por vontade de Moscou. Portanto, há indícios que a estratégia citada no blog e no livro tenha mudado de escopo.

O principal ponto de inflexão para a mudança de postura da Rússia e do que Vladimir Putin havia desenhado para o cenário da guerra foi a inação da China. Em 23 de dezembro de 2022, foi publicado no blog o artigo: O conflito na Ucrânia como uma estratégia conjunta de Rússia e China, onde abordou-se a parceria estratégica entre ambos os países, o que permitiu viabilizar a incursão russa prologada na Ucrânia mediante a aliança nas esferas econômica, política e militar. Tudo indicava uma estratégia conjunta e muito bem alinhada de Pequim e Moscou. Por isso, a possível abertura de uma frente militar na Ásia era algo factível. Como descrito na análise do artigo à época, em relação a guerra de desgaste russa para drenar os recursos ocidentais e o alinhamento sino-russo, dois cenários pareciam se desenhar:

"Caso Pequim escolha a reunificação por meio de uma incursão militar contra Taiwan, os EUA estarão muito limitados em sua resposta. Se o presidente Biden não cumprir o que foi dito, haverá uma perda de credibilidade em relação aos EUA e sua capacidade de proteger seus aliados militares. Se houver apenas duras sanções em relação a China, as consequências econômicas serão catastróficas para a economia mundial, colocando os EUA em uma posição delicada perante a seus parceiros econômicos, além da perda de credibilidade já citada. Se os Washington decidir por apoiar Taiwan entregando armas e equipamentos militares - como na Ucrânia -, os EUA sofrerão economicamente com tal fato, pois terão poucos recursos para financiar uma nova frente de combate dessa magnitude, uma vez que a guerra de desagaste empregada pela Rússia na Ucrânia drenou uma parte significativa dos recursos norte-americanos. Caso os EUA decidam enviar tropas para Taiwan, o que é menos provável - mas não impossível -, corre-se o risco de uma guerra generalizada. Esse fato é menos provável porque além de problemas econômicos e financeiros, o principal parceiro militar de Washington estará em crise e preso em um conflito desgastante em seu próprio continente, inviabilizando qualquer ajuda militar no teatro de operações asiático.
Caso não haja uma invasão chinesa de Taiwan, é possível que a Rússia prolongue ainda mais o conflito para que continue drenando importantes recursos dos EUA e UE. Neste caso, a China avaliará o momento mais propício, ou seja, o momento de estagnação dos recursos do Ocidente para intimar a ilha para uma anexação pacífica. Talvez, sem seus principais aliados, Taipei opte por uma anexação sem conflito e com um maior poder de barganha. Pela ótica de Pequim, uma anexação por meio da força implicará em uma massiva perda de vidas e de capital político perante a população da ilha e a comunidade internacional, o que a China quer evitar.
Esta análise de possíveis cenários é feita para que o leitor possa entender que há uma estratégia conjunta entre o Kremlin e Pequim para minar a força dos EUA como país líder do Sistema Internacional, pois independente da ação escolhida, ambos os países tem a ganhar com isso. Tudo indica que a estratégia sino-russa tem o objetivo de iniciar uma transição de poder no Sistema Internacional, resultado da debacle dos EUA em todas as suas esferas de poder (econômica, militar e política) que o mantém como liderança (MAIA, 2022).

Nos dois cenários desenhados em 2022, um alinhamento de Rússia e China parecia algo já dado, o que de fato ocorreu no âmbito político e econômico, mas não se desenhou na parte militar. É interessante perceber que no cenário de não abertura de uma nova frente asiática de operações, foi citado que a Rússia prolongaria a guerra de desgaste até o ponto de sufocamento dos recursos do Ocidente, abrindo caminho para uma possível anexçaõ de Taiwan pela China, o que de fato está ocorrendo.

No entanto, a inação da China começou a preocupar Moscou. Isso se somou aos diversos outros problemas que Pequim começou apresentar, como a desaceleração econômica e os expurgos na alta cúpula militar e do Politiburo. Além disso, a confiança em relação a essa estratégia foi estremecida após a tentativa de golpe do Wagner Group em meados de 2023, assunto que foi abordado no artigo: A tentativa de golpe na Rússia e suas consequências, datado de 28 de setembro de 2023. De forma resumida, a não abertura de uma nova frente militar e a inação perante a estratégia macro de remodelar a Ordem Mundial com a Rússia, fez com que os planos do Kremlin mudassem repentinamente, frente ao não cumprimento por Pequim com o que foi desenhado em conjunto.

A Rússia agora começa a sentir os desgastes de sua própria guerra. Uma economia que está desacelerando após o "boom" do crescimento inflado pela economia de guerra, uma sociedade que está sofrendo com o aumento dos mortos e feridos em combate de jovens militares russos, e o questionamento das atitudes da liderança do governo Putin. A pergunta que paira é: por que a China desistiu de seu plano e deixou a Rússia à deriva?

A resposta pode ser dividida em vários espectros. O primeiro é o medo de uma atitude mais agressiva chinesa desencadear uma ruptura comercial (sanções e retaliações) com os EUA e seus parceiros ocidentais, atualmente os principais compradores dos bens e serviços chineses, o que fragmentaria ainda mais a economia chinesa que já mostra sinais de desaceleração. O segundo é o receio de Xi Jinping de aumentar a divisão na alta liderança militar e política chinesa, o que afetaria diretamente seus alicerces de poder. O terceiro ponto é a questão demográfica, onde há a diminuição da população chinesa, com a queda da natalidade e o aumento da população idosa. Isso pressiona a estrutura socioeconômica do país.

De maneira resumida, pelos três aspectos avaliados acima, na visão de Pequim, entendeu-se que não seria viável se expor a certo ponto, deteriorar sua economia e comprometer o poder de Xi Jinping. Portanto, a China escolheu abandonar o plano inicial e deixar a Rússia enfrentar as consequências da guerra sozinha. Por outro lado, Pequim aumentou muito as compras de produtos e energia da Rússia, mas a um preço bem mais favorável aos chineses do que o mercado praticava. Dessa forma, entende-se que a China priorizou a manutenção do status quo com um ganho monetário/financeiro do que uma pressão econômica e militar para alterar a Ordem Mundial posta.

Aos olhos da Rússia e, principalmente de Vladimir Putin, o abandono do estratagema pela sua contraparte chinesa foi um duro golpe. Talvez, para Putin, até uma traição. O plano desenhado necessitava de uma abertura de uma grande frente militar no Pacífico. Não à toa, há uma grande possibilidade da Rússia ter auxiliado na eclosão da guerra no Oriente Médio via Irã, que se perpetua até hoje, pois é uma nova frente de combate aberta de um aliado estratégico dos EUA, o que pressiona por mais auxílio e envio de material bélico, recursos financeiros e militares para a região. O conflito no Oriente Médio como nova frente na estratégia desenhada por Moscou e Pequim, drenaria mais recursos e abriria uma brecha para a China forçar a tomada de Taiwan, abrindo a terceira frente de combate. Mesmo com essa segunda frente aberta, Pequim não evoluiu com o plano.

Dito isso, após quatro anos do conflito na Ucrânia, a Rússia está sentindo o peso avassalador do abandono chinês no escopo militar. Sua economia, escorada numa economia de guerra, começa a dar sinais de estagnação, somada à inflação crescente. A projeção de crescimento do PIB russo foi ajustado para baixo pelo FMI, sendo de 0,8% em 2026, assim como a inflação, estimada em 5,30% no ano. A população jovem, recrutada pela mobilização militar e os oficiais de carreira, estão sentindo o peso da guerra no número de mortos, desaparecidos e feridos. Isso tudo, para um avanço pequeno na linha de frente. A desaceleração econômica, somada à desconfiança de uma parte da sociedade e dos militares na liderança de Putin, começa a acender alertas para o líder russo.

É importante destacar que o custo político da guerra para o governo Putin foi tratado no artigo publicado no blog em 08 de maio de 2023 (pouco antes da tentativa de golpe do grupo), intitulado: Wagner Group e sua controvérsia atuação na Ucrânia. A ideia do texto foi explorar a atuação do grupo como ponta de lança da estratégia do Kremlin para a guerra desgaste empregada, utilizando mercenários e detentos como força principal do ataque, poupando o Exército regular dos custosos combates que viriam a ter, evitando o número de mortos e feridos entre os jovens e oficiais de carreira. Era a estratégia perfeita para evitar o custo político das perdas para o governo e blindar a opinião pública sobre a guerra. Após a tentaiva de golpe pelo Wagner Group, o Kremlin foi obrigado a mover o Exército regular russo como principal força de combate, o que começou a desgastar a imagem do governo pelo alto custo humano do conflito.

Não obstante ao enfraquecimento russo, houve agravamento nas frentes de atuação, como a ofensiva europeia na África, principalmente da França, para retomar a influência sobre suas ex-colônias. A tentativa de desestabilização do governo da junta militar no Mali, possivelmente apoiando grupos rebeldes e terroristas, como o Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) - afiliado à Al-Qaeda -, foi freada pela atuação do Afrika Corps russo em conjunto com o Exército do Mali. No entanto, a posição defensiva drena os recursos já escassos russos, principalmente de homens treinados para o combate. Isso é somado ao apoio logístico e bélico russo ao regime iraniano em conflito direto com as forças ocidentais, e aos ataques ucranianos de longo alcance em território russo, munidos com armas ocidentais.

A Rússia está numa encruzilhada. Por um lado, o cenário conjuntural é complexo e Putin está extremamente pressionado a dar um fim à guerra ou a ganhá-la depressa. Por outro, a China, país que o "traiu", é ainda seu principal parceiro comercial. Isto é, há uma dependência existencial russa da China, por isso, o Kremlin tem que ser muito cuidadoso e não pressionar demais Pequim a tomar uma atitude em relação aos planos iniciais.

A estratégia ucraniana, percebendo o momento de fragilidade russo e a pressão sobre seu governo, está empenhado em ataques à infraestrutura energética e alvos civis russos, criando mais problemas e pressão à Putin. Os ataques ucranianos cada vez maiores e com armas ocidentais - o que a Rússia já anunciou que é um passo para os países da UE entrarem na guerra -, tem o objetivo de trazer a OTAN para a guerra ao lado de Kiev, pois sabem que uma vitória no campo de batalha é inviável. Assim, a ideia é que os ataques com as armas ocidentais a alvos civis e pressionar a infraestrutura energética dos russos, desencadeará uma ação mais contundente e forte da Rússia perante a esses países, o que levará a entrada deles na guerra ao lado de Kiev.

É até irônico como os fatos se desenvolveram, pois a UE, com enormes problemas econômicos, não abandonou o auxílio à Ucrânia, enquanto a China abandonou seu parceiro pela priorização de sua economia e status quo. Moscou chegou muito longe e apostou demais para recuar agora em sua estratégia, os russos sacrificaram muito (político, econômico e militarmente falando). Portanto, há uma grande possibilidade da Rússia não recuar agora. No entanto, o Kremlin tem que agir rápido em relação ao seu próximo passo.

O governo russo sofre uma forte perda de apoio entre os militares, políticos e sociedade russa. O cenário marca a maior fragilidade de Vladimir Putin em todo o seu período liderando a Rússia. Putin está ameaçado de todos os lados, o que se configura numa luta constante para manter seu poder e sua mão de ferro sobre os alicerces que sustentam ele. Não é coincidência que uma série de mortes suspeitas estão acontecendo na alta cúpula russa, entre políticos, oligarcas e militares.

Em 2025, diversas mortes com o mesmo modus operandi ocorreram: Vadim Stroykin (cantor e compositor), Buvaisar Saitiev (ex-deputado da Duma do Daguestão), Andrei Badalov (Vice-Presidente da Transneft), entre outros, morreram caindo da janela de apartamentos e hotéis em um aparente suicídio. Em 2026, a morte de um alto oficial russo levantou suspeita. Alexander Otroshchenko, Comandante do Corpo Aéreo Misto da Frota do Norte, morreu em uma queda de avião que, segundo o Ministério da Defesa russo, foi alvo de uma falha técnica. Todas essas mortes podem fazer parte da blindagem política do governo Putin, o que pode indicar que Moscou está sufocando conspiradores, oponentes políticos ou militares que estão questionando as decisões políticas ou pensando em se rebelar.

Com a mudança de escopo de seu plano inicial e os ataques constantes a seu território pelos ucranianos, a Rússia também mudou a sua estratégia e claramente intensificou os ataques à Ucrânia. O conflito está em uma fase de ataques constantes de longo alcance entre ambas as partes. No entanto, chamou a atenção os ataques russos de início de julho de 2026, realizados com mísseis balísticos e de cruzeiro, bem como drones de longo alcance sobre a infraestrutura militar do regime ucraniano. Neles, os militares ucranianos afirmaram não terem conseguido interceptar nenhum míssil balístico, assim como alguns mísseis de cruzeiro e drones. O ataque resultou em 34 alvos sendo atingidos diretamente.

A incapacidade das defesas aéreas ucranianas está ligada à falta de envio e abastecimento de armas antiaéreas por seus aliados, incluindo os EUA com seus mísseis Patriots, e vem sendo alvos de críticas constantes de Volodymyr Zelensky. Além disso, no início de julho de 2026, Robert Fico, primeiro-ministro da Eslováquia, afirmou que o país não participará do fornecimento de assistência financeira e militar à Ucrânia. Não obstante, no mesmo período, a ministra da defesa da Holanda, Dilan Yeşilgöz-Zegerius, afirmou que o país chegou em seu limite financeiro e militar com seu apoio a Kiev e que não consegue mais ajudar seu aliado pela insuficiência de recursos. O fato mostra que a estratégia russa delineada e iniciada em 2022 estava indo de acordo com o planejado, mas teve que ser alterada pela mudança de postura chinesa. Enquanto isso, é possível que a intensidade dos ataques aumente de ambos os lados.

Com o abandono chinês, o Kremlin está em um dilema, pois ele precisa resolver a situação que dê à Rússia ao menos uma vantagem estratégica após esses quatro anos de guerra. Avaliando os fatos, é possível enxergar alguns cenários diante da alta cúpula russa. Ou a Rússia parte para uma ofensiva completa contra as forças de Kiev, aceitando todas as consequências que isso imputará ao país e criando uma zona tampão russa na Ucrânia, ou terá que tomar e incorporar a região do Donbass e encontrar uma saída diplomática para o conflito, para que todas as sanções contra o país fossem levantadas.

Numa outra hipótese, é possível que o governo Putin escolha por manter a estratégia de dreno dos recursos empregada até aqui, mudando o escopo de atuação sem a China, principalmente atingindo os europeus, visando o abandono completo da Ucrânia por seus financiadores e aceitando os riscos internos de seus atos.

Caso contrário, em outro cenário, o Kremlin poderá apostar mais alto e atacar diretamente as instalações europeias que suprem o regime de Kiev de armamentos que atingem a Rússia e suas tropas, apostando em uma não resposta da OTAN contra Moscou e mostrando sua força. Por ser arriscado, é possível que seja o menos viável nas análises russas. Por outro lado, em uma situação de pressão generalizada e conspiração, o próprio governo Putin pode ruir, acabando com sua era de liderança na Rússia.

Portanto, é possível que a Rússia tenha confiado em um aliado que não cumpriu seu papel designado no plano de transição da Ordem Mundial para manter sua receita econômica e financeira em um mundo cada vez mais complexo e competitivo. A China preferiu manter o status quo em suas relações, em vez de tomar parte ativa na estratégia conjunta. Isso deixou a Rússia sozinha em um cenário adverso. Mesmo assim, foi aberta uma segunda frente de atuação no Oriente Médio, o que acelerou a drenagem de recursos ocidentais. A batalha na África é outra vertente de atuação que contrapõe os interesses do bloco europeu e da Rússia. O grande dilema russo é em relação à estratégia que será seguida por Moscou frente à enorme pressão internacional e nacional em relação às consequências da guerra. A decisão a ser tomada pelo Kremlin e seu desfecho definirão a continuidade ou queda do governo, assim como uma possível mancha ou um sucesso na história russa.



Referência:


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