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A NOVA ESTRATÉGIA RUSSA: TUDO OU NADA - ORIENTE MÉDIO

Foto do escritor: rafaelpupomaia
rafaelpupomaia
30 de jul.
10 min de leitura

No desenrolar da situação no Oriente Médio e da guerra na Ucrânia, a discussão e ideias levantadas no último artigo: "A sina russa e sua nova estratégia: tudo ou nada", parecem ter uma boa linha de raciocínio no âmbito estratégico macro. Sendo assim, mediante aos últimos acontecimentos e a possível acuracidade das teses levantadas, será debatido os próximos passos da estratégia russa. É aconselhável ler o breve artigo anterior para que o raciocínio fique mais conciso.

O último artigo traz luz a mudança de escopo estratégico da Rússia em relação ao plano inicial que possivelmente tenha sido desenhado em conjunto com a China. Essa mudança ocorreu devido a inação chinesa de abrir uma frente no pacífico e colocar em prática um cenário de múltiplas frentes de guerra/conflitos para os EUA e seus parceiros manejarem, levando em conta a drenagem de recursos (sejam eles econômicos, militares ou políticos) do Ocidente, colocando em prática uma verdadeira mudança de Ordem Mundial. A inação chinesa ocorreu por motivos discutidos no último artigo, assim como a capacidade de Moscou se manter numa guerra de desgaste e suas consequências.

No final foi discutido a difícil situação em que o governo de Vladimir Putin está inserido e que a sua decisão poderia selar o destino de seu governo. Entre os cenários possíveis levantados, há a grande possibilidade do Kremlin aumentar a aposta e avançar com o plano inicial, pois o governo Putin sabe que chegou muito longe na operacionalização de sua estratégia para desistir agora. Muito foi investido e muito foi perdido. A desistência de Moscou agora ou a contentação com apenas a anexação da região do Donbass após quatro anos de guerra é a morte política do governo Putin e seu legado. Talvez, ele vá para o "tudo ou nada".

Isso já poderia ser analisado com a blitz aérea que a Rússia está empregando na Ucrânia, com uma força maior do que foi vista em grande parte da guerra e com uma grande diversidade de armas. O fato é uma resposta direta a blitz de drones que os ucranianos estão realizando à infraestrutura estratégica russa, o que dificulta a menutenção de uma guerra de desgaste. É bem possível que haja uma ofensiva russa mais agressiva (e talvez multifacetada) contra as posições ucranianas. Mas, e se a principal ofensiva do Kremlin não for na Ucrânia? E se a grande jogada da Rússia for em outra região?

A atual situação da Rússia necessita de um desfecho rápido e que seja vantajoso para o Kremlin, isto é, algo que faça o plano inicial de mudança de Ordem Mundial ser colocado em voga em sua fase final, ou seja, uma abertura de uma nova frente ou um novo conflito que impacte o cenário geopolítico global. Como Moscou não consegue suportar por um tempo mais longo essa guerra de desgaste empregada, sua jogada precisa ser inteligente e certeira, capaz de criar um cenário que vá acelerar essa drenagem de recursos ocidentais ainda mais e enfraquecer os EUA e seus parceiros, se possível, criando condições para a China entrar ativamente nessa estratégia.

À luz das explicações acima, é factível apontar que pode haver um plano para uma abertura de uma nova frente de combate no Oriente Médio, dessa vez com a invasão de um novo país. Observa-se que há uma mudança de postura do Irã. Após o ataque iraniano a navios que cruzavam o Estreito de Ormuz, os EUA se retiraram do memorando de entendimento que protegia o frágil cessar-fogo. Em seguida, ataques contínuos de Washington ao Irã foram realizados a fim de obliterar grande parte da infraestrutura do país. Como consequência, Teerã revidou e começou a atacar bases americanas na região e países vizinhos, como: Bahrein, Kuwait, Iraque, Catar e Jordânia. Além disso, o Irã fechou novamente o Estreito de Ormuz.

Em paralelo, os rebeldes Houthis do Iêmen (apoiados pelo Irã), no dia 20 de julho, anunciaram o fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb às embarcações sauditas, um estreito paralelo a Ormuz e uma rota crucial para o escoamento do petróleo saudita para o mundo, que sai do Mar Vermelho e encontra o Mar Arábico. Em seguida, ataques dos Houthis contra a infraestrutura petrolífera e energética da Arábia Saudita ocorreram, atingindo uma refinaria da Saudi Aramco em Jazan. Além disso, alguns petroleiros sauditas foram alvejados ao tentar atravessar o estreito. Coincidentemente, Riad também afirmou que interceptou ataques vindos do Iraque, provavelmente de milícias e grupos iraquianos financiados pelo Irã.


Imagem 01: Mapa do Estreito de Bab el-Mandeb e o Estreito de Ormuz

Referência: Abdallah, Abouhassira e Azhari (2026)
Referência: Abdallah, Abouhassira e Azhari (2026)

Desde 2015 há uma coalizão militar liderada pela Arábia Saudita contra os Houthis, mas apenas agora eles resolveram se envolver diretamente no conflito do Oriente Médio de forma militar e econômica. O governo iemenita apoiado por Riad prontamente se pronunciou e disse estar preparado para retomar o controle da importante passagem. A pergunta que fica no ar é: por que só agora os Houthis tomaram essa medida?

Não obstante, os preços do petróleo serão impactados diretamente pelo bloqueio, além de causar uma nova onda de insegurança energética no mundo. Segundo a Reuters, esse novo embargo no Estreito de Bab el-Mandeb reduziria a oferta global de petróleo em 7%. Esse número se somaria a uma redução dos embarques da matéria-prima já registrada de 10% da oferta global. Além do potencial aumento de preços do petróleo, há uma escassez latente do bem pela falta de embarque e escoamento.

Dois dias após o anúncio dos Houthis, no dia 22 de julho, foi publicada pela Reuters uma notícia que sugeria um amplo apoio russo de inteligência e tecnologia ao Irã, principalmente em ataques a bases secretas da CIA no Golfo. Segundo a notícia, a eficácia dos ataques e a amplitude das trocas entre Moscou e Teerã indicam um auxílio russo nessas ofensivas iranianas. É interessante notar que os supostos auxílios russos aos iranianos eram discutido no blog desde 2023, como base de uma estratégia em conjunto. Portanto, há indícios, agora divulgados, que há um alinhamento estratégico entre os países.

A Arábia Saudita é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, atingir seus terminais de transporte e escoamento afeta diretamente o preço e a oferta do produto. Dessa forma, os EUA terão que auxiliá-los de maneira mais efetiva para evitar que os ataques afetem a oferta e o preço do petróleo, seja com mais tropas no país, mais armas antiaéreas, etc. Mais um parceiro estratégico necessitado da ajuda de Washington e de seus preciosos recursos econômicos e militares, além de Israel e Ucrânia. Sem contar as próprias bases norte-americanas no Golfo que foram reforçadas. Mais um ponto de drenagem de recursos.

Além disso, caso o cenário se conjecture dessa forma, o aumento nos preços e a diminuição da oferta do produto afetará diretamente as economias globais, incluindo China e EUA. Não é por acaso que Pequim entrou em contato direto com os Houthis pedindo salvaguarda de seus navios pelo estreito, que foi aceito pelo grupo. A China foi o primeiro país a entrar em contato com o grupo, tamanha é a necessidade dela pelo bem. Pequim conseguiu manter o seu corredor logístico de petróleo funcionando, mas não conseguirá impedir o provável aumento dos preços. Dependendo do auemento do preço do produto, isso impactará diretamente na já desacelerada economia chinesa.

Portanto, a movimentação dos Houthis somado à guerra ao Irã e suas consequências, tendem a mexer de maneira negativa com o mercado energético, criando escassez e aumento dos preços. O fato dos Houthis terem tomado essa ação apenas agora não é coincidência. Seguindo com a linha de raciocínio do blog desde 2022 e, sobretudo do último artigo, há a ideia de que a Rússia está desenhando e articulando a abertura de uma nova frente de combate com o Irã e suas guerrilhas proxys para drenar mais recursos dos EUA e pressionar a China por uma ação. É possível que essa nova frente seja uma invasão iraniana do Kuwait. Todo as informações que foram descritas anteriormente é a construção e operacionalização dessa estratégia.

A posição da Rússia é delicada, eles irão para o tudo ou nada. Se a Rússia perder, o Irã perde seu principal apoio militar e está fadado a derrota. Portanto, Moscou instigou Teerã a um movimento ousado. Através dos Houthis, o Estreito de Bab el-Mandeb foi fechado aos navios sauditas, pressionando a oferta e os preços da energia, além de ataques à infraestrutura energética de Riad. Em paralelo a isso, milícias e grupos dissidentes iraquianos apoiados pelo Irã começaram a atacar diversos pontos da infraestrutura energética no Golfo, pressionando ainda mais o valor do petróleo. Dado esse cenário, é possível que ocorra um ataque coordenado entre as milícias iraquianas e o Exército iraniano para tomar o Kuwait. Mas, por que o Kuwait?


Imagem 02: Mapa do Kuwait

Referência: Anthony (2026)
Referência: Anthony (2026)

O Kuwait é um país territorialmente pequeno, mas atualmente é o 10° maior produtor de petróleo mundial e possui a 7° maior reserva do produto no mundo. Sendo um país pequeno, a resistência militar tende a ser menor, mas sua tomada tem um impacto gigantesco no setor econômico mundial, por ter uma grande influência no preço do petróleo. Para efeito de comparação, em julho de 1990, um mês antes do Iraque invadir o Kuwait, o preço do petróleo estava em torno de US$ 17,00 o barril, alcançando cerca de US$ 40,00 o barril em outubro do mesmo ano. Essa crise na região somada ao aumento súbito do preço do barril, levou os EUA a liderar uma guerra aérea e terrestre contra o Iraque em janeiro de 1991.O objetivo da Guerra do Golfo (1991) era libertar o Kuwait e estabilizar o mercado energético. A guerra acabou em fevereiro de 1991.

A Rússia apresenta a oitava maior reserva de petróleo do mundo e é o terceiro maior produtor mundial, enquanto o Irã é o sexto maior produtor de petróleo e possui a terceira maior reserva global. Ambos têm uma ampla influência no mercado energético. Com a possível invasão iraniana do Kuwait (que se dará através de território iraquiano e com apoio das milícias pró-Irã), o choque no preço do petróleo e energético como um todo serão drásticos. Isso será intensificado pelos ataques de grupos alinhados com Teerã nas infraestruturas energéticas da região. Além disso, uma parte considerável da oferta global estará nas mãos de Rússia e Irã. A diminuição da oferta e a dificuldade de seu escoamento serão os principais fatores de aumento dos preços.

Esse aumento generalizado e súbito dos preços energéticos causarão um grande problema para a economia global, especialmente para as grandes potências como EUA e China. Mesmo que os EUA retaliem diretamente a invasão iraniana, como um cerco ou tomada da estratégica Ilha de Kharg no Irã, ou uma frente curda atacando o país persa, dificilmente Washington terá outra opção a não ser mobilizar tropas terrestres para libertar o Kuwait. Uma invasão terrestre dos EUA seria catastrófica em termos políticos para o atual governo, além de drenar uma enorme quantidade de recursos norte-americanos.

Se isso ocorrer, novamente se abre a oportunidade para a China tomar uma atitude e criar uma nova frente de atuação para pavimentar uma mudança de Ordem Mundial. No entanto, se esse cenário se concretizar, Pequim será quase obrigada a tomar uma atitude. Isso porque ela perde dois de seus três principais pilares que mantém a fora do conflito (que estão descritos no último artigo), seus motivos de inação. A China perde seu ganho mercadológico, pois o aumento será tão drástico que afetará não só os produtores, mas os compradores, assim como a base de poder de Xi Jinping, pois a economia chinesa já enfrenta uma desaceleração e será atingida por um duro golpe econômico, a não ação fragiliza a posição do líder chinês. A mensagem de Putin a Xi Jinping é clara, se o governo Putin irá cair, a era de Xi Jinping também chegará ao fim na China.

Portanto, nesse cenário previsto a Rússia está realizando movimentos geopolíticos arriscados. Neles, a estratégia russa é forçar uma situação no Golfo Pérsico através de seu parceiro iraniano e seus grupos e milícias proxys que reverberará de maneira súbita e negativa na economia global, principalmente no preço do petróleo, fazendo com que haja movimentos cruciais das grandes potências. Esses movimentos serão definidores se iniciaremos a fase final de um início de tentativa prática de uma mudança na Ordem Mundial.

Caso se viabilize a invasão do Kuwait e a resposta militar dos EUA, principalmente com tropas e uma invasão terrestre, poderá ter início a operacionalização do movimento que Moscou esperou causar. Não obstante, diante do cenário adverso em que se encontrarão os preços do petróleo e afins, Pequim será obrigada a tomar uma atitude rápida ou a pressão que hoje recai sobre as costas do governo Putin, também começará a recair nas costas do governo de Xi Jinping. Essa pressão que seu governo sofrerá, poderá levar a China a ação nesse plano desenhado por ambos no passado e defendido pelo blog desde 2022.

Se caso a invasão do Irã no Kuwait ocorrer e a China não tomar a atitude que o Kremlin espera que Pequim tome, a pressão sobre ambos os governos aumentará drasticamente, podendo resultar uma série de crises internas. O tabuleiro geopolítico e suas estratégias são organismos vivos que respondem a estímulos, mas não de uma maneira totalmente previsível. É necessário análises constantes, sérias e sem viés político para entender as estratégias das grandes potências. A análise de hoje é resultado do que se enxerga nesse momento, mas que pode mudar devido a mudanças de estratégias.

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